Quebrar o tabu – depressão

A depressão é um sentimento de tristeza e/ou diminuição do interesse ou prazer em realizar atividades que se torna um transtorno quando é intenso o suficiente para afetar o desempenho das funções. É essencial perceber que qualquer pessoa pode ficar triste, mas esses sentimentos são efémeros, pelo contrário, a depressão interfere nas atividades diárias que envolvem intenso sofrimento. Como tal, a depressão, embora comum, é uma doença grave.
É estimado que 5% da população mundial tenha depressão, o que não parece muito até fazermos as contas. Existem 7,9 bilhões de humanos, ou seja, cerca de 397,1 milhões de nós têm depressão, o que é 39 vezes mais do que a população de Portugal. Os números variam muito, mas alguns estudos mostram que o risco de depressão é entre 10% e 25% para as mulheres e, nos os homens, entre 5% e 12%. Ou seja, episódios de depressão afetam mais mulheres do que homens. No entanto, são eles os que mais comentem suicídio. Existe também um acréscimo dos números quando nos referimos a jovens da comunidade LGBTQIA+. Um estudo realizado nos Estados Unidos identificou que 8% dos homens e 13% das mulheres heterossexuais tinham ideação suicida, enquanto que entre homens e mulheres da população LGBT essa taxa foi de 36% e 42% respectivamente. Além disso, 9% dos jovens (16-24 anos) experimentam níveis altos a muito altos de sofrimento psicológico.
Pessoas de 18 a 24 anos têm a maior prevalência de transtornos mentais do que qualquer outra faixa etária e o suicídio juvenil é a principal causa de morte em jovens de 15 a 24 anos. Obviamente estas estatísticas nunca pretendem desvalorizar qualquer grupo, apenas nos mostram que qualquer um de nós pode vir a desenvolver depressão.
Depois de toda esta matemática sobre depressão, acho que seria conveniente falar sobre as suas causas e sintomas. A causa exata da depressão não é clara, mas vários fatores podem contribuir para uma maior probabilidade de desenvolver este distúrbio. Enquanto algumas coisas aumentam a nossa resiliência e nos protegem contra a depressão, outras aumentam esse risco. Entre os maiores contribuintes para este desenvolvimento são:
- Uma tendência familiar/fatores genéticos (hereditariedade)*;
- Doenças médicas/efeitos colaterais de certos medicamentos;
- Trauma ou abuso na infância;
- Estresse durante a vida adulta;
- Fatores ambientais (ambiente familiar e relações sociais).
*curiosidadezinha: se um ou ambos dos teus pais biológicos tiverem depressão, tu tens mais 40% probabilidade de a desenvolver.
As primeiras depressões costumam ter um “motivo”, mas, a partir daí, a relação vai desaparecendo até que a pessoa se apercebe que se deprime mesmo em fases que não correspondem a um cenário/quadro igual ou parecido. A depressão não é uma fraqueza de carácter. A classe social, a origem étnica e fatores culturais não exercem, aparentemente, influência sobre a possibilidade de uma pessoa ter depressão ao longo da vida.
Alguns dos sintomas pertencentes ao quadro da depressão são:
- sentimentos de tristeza, aborrecimento, quietação;
- sensações de irritabilidade, tensão ou agitação;
- sensações de aflição, preocupação, receios infundados (devido a uma interpretação distorcida e negativa da realidade), insegurança, inutilidade, culpa e de autodesvalorização e de não pertença;
- diminuição da energia, fadiga e lentidão;
- perda de interesse e prazer nas atividades diárias;
- insônia (não dormir) e hipersonia (dormir demais);
- diminuição do desejo sexual;
- variações significativas do peso por perturbações do apetite;
- alterações da concentração, memória e raciocínio;
- sentir-se inquieto ou ter problemas para ficar sentado;
- sintomas físicos não devidos a outra doença (dores de cabeça, perturbações digestivas, dor crónica, mal-estar geral);
- ideias de morte, automutilição e suicídio ou mesmo tentativa de suicídio.
Eu sei, é uma lista ainda um pouco longa. Mas para deixar de lado a parte negativa por um pouco, informo-vos que na maior parte dos casos tem cura. Eu não me vou armar em Alice Santos nesta parte, prometo. Existem tratamentos psicológicos e farmacológicos para a depressão e a sua escolha depende da gravidade do quadro clínico, da preferência do doente e presença ou não de outras doenças. No entanto, em países de baixo e médio rendimento, os serviços de tratamento e apoio para a depressão geralmente estão ausentes ou subdesenvolvidos. Estima-se que mais de 75% das pessoas com transtornos mentais nesses países não recebam tratamento.
O principal método é a intervenção psicoterapêutica. Existe também a vertente farmacológica, nomeadamente o uso de antidepressivos (mediante prescrição médica). No entanto, eu quero mesmo alertar para o facto de que a medicação não trata o problema, apenas atenua os sintomas, isto para que a pessoa consiga assumir novamente o controlo da sua vida e melhorar o seu bem-estar físico e psicológico. Caso se tome a rota de experimentar antidepressivos*, o ideal será sempre a coexistência de ambas: a medicação e o acompanhamento psicoterapêutico, deixando de lado as palavras caras por um momento.
*curiosidadezinha: os países onde mais se recorre a antidepressivos são a Islândia, Austrália, Canadá, Dinamarca, Portugal e Reino Unido.
Podemos sempre também tentar algumas terapias alternativas como Terapia cognitivo-comportamental, Mindfulness, Acupuntura, Estimulação magnética transcraniana, Yoga, Reiki, barras e meditação. Há quem diga também que beber sumos de uva, maçã e maracujá pode ajudar, juntamente com sair de casa e apanhar sol, socializar. Ao contrário do que diz a nossa amiga Alice, isto não são curas, mas sim, como eu gosto de dizer, é “mandar a depressão ir dar uma volta”, dizer-lhe que não, e por mais que ela resista, continuar a dizer que não.
Um vídeo feito pela OMS comparou a depressão a um grande cão preto e, seguindo essa analogia, eu digo que devemos treinar esse cão porque, por muito teimoso que ele seja, é possível sermos nós a ter a controlá-lo. Temos de dizer que não à depressão mais vezes: se ela disser “vamos ficar na cama”, nós dizemos “vamos passear”, se ela disser “não tenho fome”, nós dizemos que nos apetece um chocolate. Por mais ridículo que pareça é algo que ajuda bastante, não só com a depressão, mas também com a ansiedade. Falar com elas, por mais tolo que nos faça sentir, acaba por nos ajudar. Elas que nos deitam abaixo, que nos dificultam a vida, mesmo que não tenhamos força para lutar contra elas, pouco a pouco é possível fazê-lo, nem que seja fazendo algo tão “pequeno” como lavar os dentes, escovar o cabelo ou tomar banho. Todas as coisas que a depressão faz com que pareçam impossíveis, são possíveis, desde que lutemos, desde que não nos entreguemos a ela, é possível ultrapassá-la.
Falemos, assim, sobre o que que podemos fazer para nos ajudarmos e aos que nos rodeiam. No fim do artigo deixarei linhas de apoio, mas, entretanto, falemos de outras coisas que podemos fazer.
Para te ajudares a ti próprio estas são algumas das coisas mais importantes a fazer:
- Construir uma rede de apoio – uma das coisas mais importantes que podes fazer para te ajudar a lidar com a depressão é desenvolver uma rede de apoio. Pessoas que estarão lá para ti, amigos, família, namorados, namoradas, professores, qualquer pessoa que te sintas à vontade. Não tenhas medo nem vergonha de pedir ajuda, depressão não é algo vergonhoso.
- Melhorar a tua higiene do sono – basicamente uma maneira chique de dizer para organizar os nossos horários de dormir, já que o sono e o humor estão intimamente relacionados. Evita também trabalhar, estudar e comer na cama ou até mesmo no teu quarto. O quarto deve ser um sítio apenas para relaxares e dormires.
- Tentar comer regularmente, apesar das alterações de apetite – como já disse, às vezes a depressão enche-nos a barriga, mas, nem que seja só “porcarias”, é importante comer algo.
- Aprender a lidar com os pensamentos negativos – a depressão não faz só com que te sintas mal, ela também te faz pensar mais negativamente sobre tudo e todos, por isso, aprender a lidar e a mudar esses pensamentos negativos pode ajudar, mas antes que o digas, eu sei, é mais fácil dizer do que fazer. Contudo, aos poucos é possível.
Para ajudar os outros é importante que, acima de tudo, respeites o seu tempo. Sê paciente. É difícil falar sobre estas coisas com outras pessoas, a depressão pode ser ciumenta.
- Ouve mais do que falas – não desmereças a sua condição, empatiza com a pessoa e oferece suporte e acolhimento, sem quaisquer julgamentos.
- Incentiva-a a procurar ajuda profissional.
- Desencoraja o consumo de álcool e drogas – estas substâncias são válvulas de escape para quem tem depressão. Porém, são muito perigosas, pois podem piorar o quadro pelo seu efeito depressor.
- Incentiva a socialização – incentiva-os a dizer não à depressão.
- Não ignores comentários suicidas – existe uma ideia muito difundida que diz que “quem vai se matar não avisa ou tenta, apenas se mata”. Isto é completamente falso. Portanto, nunca ignores um comentário sobre suicídio. Pelo contrário, leva-o a sério. O que podes fazer é conversar com a pessoa sobre isso e incentivá-la a procurar ajuda profissional o quanto antes.
- Acima de tudo não insistas em estereótipos falsos sobre a depressão, como a ideia de que é drama, só para chamar a atenção ou uma tristeza passageira.
Para terminar o artigo gostava de mencionar alguns livros que podes ler sobre o assunto como A Vida Num Degrau, de Diogo Telles Correia, Razões para Continuar Vivo, de Matt Haig, ou O Lado Bom Da Vida, de Matthew Quick. E para mostrar que chega a toda a gente, deixo-vos o nome de algumas celebridades que sofrem ou já sofreram com depressão, como: Adele, Manuel Luís Goucha, Michael Phelps e até o Buzz Aldrin. Um dos primeiros homens a pisar a lua lutou contra a depressão. Para mim isto significa que não interessa quanto dinheiro, fama, sucesso tenhamos, nada nos torna imune. O que realmente é preciso é aprender a lidar com a depressão.
Negar a existência da doença é perigoso. Lembra-te que, para ajudares alguém, tens de estar bem primeiro, cuida de ti, e vais cuidar dos outros.
Autora: Ema Sousa, aluna da turma I do 12.º ano e membro do Clube de Jornalismo
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SOS Estudante
Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio.
Todos os dias das 20h à 1h (exceto férias escolares)
915246060 (Yorn) – 969554545 (Moche) – 239484020 (Fixo)
Todas estas linhas são de duplo anonimato — garantido tanto a quem liga como a quem atende. Para encaminhamento, a linha do SNS 24 (808 24 24 24) é assumida por profissionais de saúde.
Fontes:
Cuf, black dog institute, SNS, Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, OMS, Atlas da Saúde, The Guardian, manual msd e gazeta do povo
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