Até quando é que vamos continuar a permitir que o bullying destrua vidas?
Se consciencializar fosse suficiente para fazer com que a violência deixasse de ser praticada, o mundo seria hoje um lugar perfeito. Por exemplo, se levássemos a sério o lema “lixo no chão isso é que não”, que nos é, ou, deveria ser cantado na infância, o nosso planeta não estaria no estado em que se encontra. Nem é preciso ir tão longe: já repararam na quantidade de lixo que temos espalhado pela nossa escola? – mas isso é assunto para outro dia. A questão é que, se cada um de nós se preocupasse, realmente, com o que acontece à sua volta, com o ambiente, mas, principalmente, com as pessoas que nos rodeiam, talvez as coisas fossem diferentes.
Ao longo destes, pelo menos, dez anos de escolaridade, temos sido, constantemente, alertados para nos colocarmos no lugar do outro, não fazer aos outros o que não gostávamos que nos fizessem a nós e, portanto, para que, independentemente do que esteja a acontecer na nossa vida pessoal, nos respeitarmos imprescindivelmente. No entanto, continuam a verificar-se regularmente situações de agressão física, verbal ou psicológica no ensino secundário. Uma década a ouvir a mesma coisa e, mesmo assim, não aprendemos nada? Quer dizer, a maior parte de nós já tem, ou em breve terá, idade para conduzir, votar, abrir uma conta no banco, mas, não para ter noção das consequências dos seus atos?
O bullying, tal como a questão da poluição, é, numa fase inicial, um acumular de eventos que, na sua generalidade, passam despercebidos. Que escolhemos acreditar que não passam de meros casos isolados sem grande importância. Até que as marcas deste se começam a tornar visíveis e a mudar a forma como lidamos connosco próprios e com o mundo.
Porque é que é tão difícil entender que a maneira como nos expressamos fisicamente e verbalmente importa, influencia e afeta, significativamente, a vida dos outros? Que as nossas ações e as nossas palavras podem ser altamente destrutivas?
Um papel no chão não é só um papel no chão, tal como um comentário não é só um comentário: o agressor, no seu livre-arbítrio, escolhe insultar alguém. E, por mais que esse alguém, que essa vítima, possa tentar ignorá-lo, essas palavras vão, eventualmente, ficar a ecoar na sua cabeça, fazendo com que esta pessoa questione o seu valor (a forma como se vê a si própria e como os outros a veem) ou o dos outros (a forma como vê os outros) – podendo alterar irreversivelmente a sua vida.
Mas, se consciencializar não chega, o que é que podemos fazer para travar a violência? Para evitar estes traumas que deixam marcas para sempre? Para garantir que mais ninguém se mutila ou morre por não conseguir aguentar o sofrimento causado pelas agressões diárias e, muitas vezes, ignoradas pelos outros?
Se bastasse existir entidades punitivas para que os atos de crueldade fossem erradicados, viveríamos em paz. A verdade é que elas existem, só que ou não funcionam eficazmente (por não conseguirem dar resposta a tantos casos), ou nem sequer são ativadas (porque grande parte das situações não são vistas com a urgência que têm).
O certo é que não podemos ficar de braços cruzados a ver a nossa vida, a vida de alguém de quem gostamos ou, até mesmo, a de alguém que não conhecemos, ser desmoronada. Por isso, deixamos aqui algumas dicas para te relembrares de como identificar um cenário de bullying, como reconhecer uma vítima e de como podes ajudar alguém nesta situação.
Primeiro, como distinguir um cenário de bullying de uma “brincadeira”? A resposta é bastante simples: se essa “brincadeira” envolve magoar fisicamente alguém ou fazer troça de qualquer condição biológica ou social que a pessoa não pode alterar, não se trata de uma brincadeira.
Numa situação de bullying identificam-se, pelo menos, duas pessoas envolvidas: a que agride e a que é agredida. Estas, por regra, distinguem-se através da sua expressão: enquanto o agressor apresenta uma certa raiva, fúria ou até algum gozo na sua expressão corporal e tom, a vítima mostra-se incomodada, desconfortável, envergonhada ou mesmo insegura com o cenário vivido. Contudo, se a situação ocorrer num espaço público e movimentado, como são, o polivalente, a entrada ou o refeitório, é provável que existam cúmplices. E quem são estes cúmplices? Qualquer pessoa que esteja a testemunhar a agressão e não contribua para que a situação seja resolvida. És cúmplice se incitas à violência. És cúmplice se gravas e publicas este cenário na internet. És cúmplice se ficas a ver, ou se viras as costas, e não fazes nada. Então, se te deparares com um episódio de violência na escola, não ignores, dá o alerta – chama um funcionário ou um professor. No entanto, o bullying acontece também em locais mais escondidos e discretos, o que, em certos casos, impossibilita a existência de testemunhas.
Passar por uma situação de bullying, enquanto vítima, costuma alterar o comportamento das pessoas, mas, só sabemos que o comportamento de alguém mudou se, efetivamente, a conhecermos – e isso também depende da nossa atenção! De uma maneira geral, quando as pessoas passam por uma situação destas, algo que, possivelmente, as fez sentir humilhadas, costumam aparentar estar mais pensativas, reservadas, apáticas, irritadiças ou até mesmo agressivas. Porém, é importante salientar que cada um tem a sua forma própria de lidar com as coisas e que cada pessoa reage a cada situação de forma diferente. Por isso, em vez de parecer mais triste ou abalada, a pessoa pode adotar uma postura contrária, em que pretende dar a ideia de que a situação não a afetou, quando, na verdade, está a sofrer em silêncio, sofrendo duplamente. Visto que todos temos o nosso feitio e, muitas vezes, não demonstramos como nos estamos verdadeiramente a sentir, é muito complicado entender realmente pelo que é que as pessoas estão a passar. Portanto, perante todas estas condicionantes, mais do que notar se a postura ou expressão da pessoa tem estado diferente, é muito importante ter em atenção se a pessoa está a fugir, de forma alarmante, à rotina: deixar de comer, evitar passar por certo sítio, deixar de fazer o que gosta subitamente, não querer estar sozinha ou isolar-se.
Infelizmente, a era digital, que veio supostamente para melhorar e facilitar a nossa vida, gerou uma nova forma de bullying: o cyberbullying – onde o agressor se esconde atrás do ecrã de um telemóvel ou de um computador, permitindo que as ofensas, humilhações e difamações aconteçam mais rápido, com mais frequência, anonimamente e a partir de qualquer lugar, tornando-o ainda mais nocivo. Pode acontecer, novamente, por via privada (a partir de mensagens privadas a que só o agressor e a vítima têm acesso – fazendo com que seja muito mais difícil de denunciar) ou por via pública (em que são criadas páginas nas redes sociais com o propósito de fazer ameaças e humilhações a que qualquer pessoa pode aceder).
Se suspeitas que algum amigo ou familiar está a ser vítima de bullying, a melhor forma de ajudar é estar presente. Mostra-te disponível para conversar – oferece ajuda, mas não a imponhas. Demonstra a tua preocupação, respeita o tempo da pessoa, e, sobretudo, mantém- -te alerta.
Se tu, que estás a ler isto, estás a ser vítima de bullying, quero que saibas que a pessoa que te está a agredir está só a tentar magoar-te. As ações ou as palavras dessa pessoa não dizem nada em relação em relação a ti. O agressor não se importa se o que diz faz sentido ou se é verdade – ele só quer saber se essas palavras te conseguem atingir. Por isso, não deixes que essa pessoa tenha poder sobre ti. Não sofras sozinho, nem tenhas medo de pedir ajuda. O teu silêncio permite a continuidade da agressão: a ti e a outros. O ato de denúncia é um ato altruísta, de coragem e de justiça.
E se tu, que estás a ler isto, te consegues identificar, de alguma forma, com as atitudes de um agressor: para. Não vais ganhar nada com isso. Seja qual for o motivo pelo qual entendes que o podes fazer, nada justifica o sofrimento que causas aos outros. O teu comportamento é da tua responsabilidade. Por isso, procura ajuda antes que destruas a vida do outro e a tua. Há pessoas disponíveis para te ajudar a ti também, basta quereres mudar.
Tudo o que fazemos é uma escolha: quando escolhes vingar o teu ressentimento e os problemas da tua vida nas outras pessoas, agredindo-as fisicamente, emocionalmente ou psicologicamente, tornas-te num agressor; quando permites que alguém seja humilhado e maltratado, tornas-te seu cúmplice; e quando te humilham e maltratam, tornas-te numa vítima – mas não é isso que te define, a não ser que tu o deixes. O que te define é a forma como decides lidar com isso.
Lembra-te: Não consegues evitar ser vítima de bullying, mas, está sempre na tua decisão ser cúmplice ou agressor.

Autora: Laura Orge dos Santos, aluna da turma H do 12º ano e membro do Clube de Jornalismo
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