Crónica de viagem
No autocarro, espreguiçando-me, deitado, a ocupar dois bancos, com o negro da noite a pesar-me sobre as pálpebras, já não pensava em mais nada. Tinha sido uma longa viagem e agora estávamos de regresso a casa. O voo de Lisboa a Faro tinha sido cancelado; o piloto sentira-se mal. Mas quem não tem asas vai por terra e o autocarro apenas adiara a despedida final. E, quando me despedi, ignorava, por culpa do sono, a experiência incrível que vivera naquela semana.
Tínhamos viajado, num projeto Erasmus, para a República Checa. Tudo tinha sido organizado num frenesim. Partíamos num domingo de manhã. Enfiamo-nos a correr no avião e, mal nos tínhamos sentado nos bancos, sacamos dos portáteis e continuamos a elaborar o nosso workshop sobre os problemas ambientais do Algarve. A apresentação era no dia seguinte e, por isso, aquelas três horas de viagem foram úteis para fazer os últimos preparativos.
Fizemos escalada em Viena, onde tomamos o almoço. Para grande surpresa nossa, encontramos os nossos colegas romenos, que participavam na mesma mobilidade. Hesitamos, ao princípio, em lhes falar, mas rapidamente tornamo-nos amigos tão chegados que não parecia mais haver terra ou mar a separar os países de origem. Daí para a frente, partilhamos o comboio para Staré Město, o hotel, de vez em quando os próprios quartos, onde passávamos a noite a ouvir música ou simplesmente a conversar.
Quando chegamos a Staré Město fomos amavelmente recebidos por dois professores checos que nos levaram ao hotel. Instalamo-nos e, depois, andamos errantes pelas estradas da cidade à procura de um lugar onde pudéssemos comer. Achamos um KFC. Sempre servia…
No decurso da semana, tínhamos vários eventos programados. Para o primeiro dia estavam agendados os workshops português e romeno. Éramos os primeiros a apresentar. Toda a tensão que se tinha acumulado ao longo desses últimos dias dissipava-se lentamente à medida que íamos apresentando o trabalho. E, com exceção da minha proficiência linguística no inglês que se foi lentamente degradando, desde um inglês muito chique até um quase balbuciante, correra tudo muito bem. De seguida, fomos visitar a escola, guiados pelos estudantes checos. Era pequena, mas tinha um ar acolhedor, além de estar muito bem equipada, com salas de informática e de laboratório que me fizeram invejá-los.
Houve dois eventos do programa que se destacaram. O primeiro foi uma viagem de barco por um rio que passava em Staré Město. O barco ia muito devagar, o que nos permitiu aproveitar as belas paisagens. Contudo, não havendo bela sem senão, seguiu-se uma longa caminhada que me deixou derreado na cama naquela noite. O segundo evento (e possivelmente o mais emocionante) foi uma caminhada pelas montanhas, cobertas de neve e com um frio acutilante, mas que se aguentava bem. Porém, era preciso cautela… As batalhas de bolas de neve irrompiam inesperadamente e faziam muitas vítimas.
Ao longo da viagem, os checos foram sempre muito amáveis, esperando, quando caminhávamos pela cidade, pelas passadas lentas dos portugueses, a fim de não nos separarmos muito.
No final, tivemos uma grande cerimónia de encerramento, onde nos revíamos com alegria, pelo esforço de cada um de nós (e especialmente dos checos), para tornar tudo aquilo possível.
As experiências que vivemos e, acima de tudo, as pessoas com quem as vivemos, colegas e professores, tornaram essa viagem única!
Eleazar Pereira, 11.° D

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