LIBERDADE OU LIBERDADES?
Texto vencedor do Concurso Literário Juvenil da Escola Secundária de Loulé (edição 2023/2024)

Cartaz da semana da Leitura de 2024, momento em que os textos candidatos ao Concurso Literário Juvenil foram entregues
Liberdade ou Liberdades? É só uma ou existem várias? Tantas vezes já refleti sobre as mil promessas proclamadas por Salazar e Caetano que pintam nada mais do que uma ilusão. Tantos me desprezam e numerosos são simplesmente requintadas peças de xadrez, e é por isso que derramo tudo por aquilo que passei numa mera folha de 5 escudos. Escrevo isto na claridade e luz do dia 24 de abril de 1974, preparado para a onda de mudanças que virá junto com os cravos que comprei segunda-feira no florista ao lado da porta da minha velha e silenciosa casa. Lembro-me de ter visto os agentes a levarem um colega que andou na escola comigo (tão corados que ficávamos quando avistávamos as raparigas); queria protestar, mas tinha de manter a postura para o mal evitar.
Meti os cravos num vaso, e comecei a ler o “Jornal das Notícias” para me iludir e sonhar com mentiras propagadas pela censura, pensando na mesma sobre as almas silenciadas e as complicações omitidas. No fim das contas o Zé Povinho é só mais uma personagem que não contribui para a imagem perfecionista de Portugal. Afinal como podemos nós sujar e contaminar a nossa ilustre nação?
Já está na hora de almoçar mas não tenho nenhum gosto em comer sabendo que há crianças que nem uma migalha a seu nome têm. Imensamente estou eu agradecido a meu pai que trabalhou duro (e de quem a alma foi roubada pela guerra colonial na Guiné e pelo próprio Estado) para sustentar a nossa modesta família. Esse grande homem, cego à realidade, prestou a sua vida ao governo de forma igual a um cão leal e morreu feito de burro. Tanto a notícia da sua morte me angustiou que berrei a minha alma fora e gritei as mais mal apropriadas palavras que foram incapazes de comunicar a minha comoção. Que deem fim a essas malditas guerras!
Mas não foi só por sua causa que vivo agora com escudos suficientes para andar por esta terra de uma forma minimamente digna. Também tinha a mulher mais guerreira que uma vez já conheci, minha mãe, que agora descansa no seu frágil túmulo de madeira onde o sol não nasce. Foi ela que protestou e deu voz a esse tal “Zé Povinho”, sacrificando a sua própria vida e deixando-a atrás das barras de uma cadeia quando foi detida pela DGS (pela segunda e última vez). Razões por quais foi detida eram estúpidas e não compreensíveis do ponto de vista de um cidadão comum; na primeira vez foi suspeita de ouvir músicas que foram proibidas pela Estado; na segunda vez foi levada pelo cabelo até à cadeia por ter criticado o Estado de forma extremamente clara. Foi lá que faleceu depois de ter levado com um murro na cabeça por “não calar a boca”. Enfim, o seu único e verdadeiro desejo era ser livre e ter um marido e filho salvos, porém acabou por lhe ser roubado o direito de viver pelo próprio que jurava proteger o povo.
Já está quase a anoitecer, sete da tarde são. Fechei as cortinas, tranquei as portas, para do mundo real me desapegar. Tirei o rádio que tinha escondido, li a última carta do meu pai que me restava e relembrei os velhos e nostálgicos tempos que queria apagar da minha memória. Ainda consigo ouvir as crianças a brincar, os militares a desconfiar, e as mães a gritar pelos pequeninos. Nenhum desses elementos suspeita o que irá vir junto com o nascer do sol do dia 25, o nascer de uma nova nação. Uma nação livre.
Confirmei as informações que me foram fornecidas pelo meu conhecido do MFA, um bom amigo familiar que conhecia os meus pais desde que criança e que, como capitão, teve sorte de conseguir escapar à morte cruel e desumilde da guerra. Farto estou eu de fingir e ser ignorante em relação a aquele que está no “trono”; estou enfastiado de dar desculpas, ouvir os choros das mães cada vez que lhe é dada uma nova carta e ver as meninas com grandes pesos nas suas minúsculas costas. Contudo, meterei o cravo na minha espingarda (que me foi passada pelo meu pai) e irei esperar pelo aparecimento das luzes divinas por trás dos montes junto com a música que irá encher os corações de adrenalina e sentimento de realização. Tão esperançoso estou eu de ouvir a voz do Zeca Afonso por mais uma vez…
Esta noite não irei para o mundo dos sonhos mas ficarei com a espingarda na mão, com as cortinas fechadas e rádio ligado ouvindo as canções.
Despertou no início do dia 25 “Grândola Vila Morena” junto com a qual despertou a revolução. Todo o país foi tomado por nós, pelo povo, pelo coração da nação. Pessoas a dormir enquanto acordava a liberdade; medo, confusão, barulho e o desconhecimento nunca tiveram um sabor tão doce. Saímos pela rua, com as espingardas na mão, a distribuir cravos e a gritar: “Viva Portugal, viva a nação!”. Os inimigos da DGS não eram mais nada do que fingidos que acabaram por juntar-se à aglomeração; já não obedeciam a ninguém (nem ao próprio Caetano) e agiam por si só, agiam como o povo.
Começara assim a Revolução dos Cravos, que encheu as ruas de lágrimas alegres e gritos comemorativos. Nunca tanta confusão me tinha aquecido o coração. Finalmente voltaram o verde e o dourado à bandeira de Portugal e ouvi aquilo que tanto queria ouvir: “Somos livres!”, “Temos liberdade!”, “Temos liberdades!”. Afinal a resposta era tão óbvia (foi nesse momento que eu, homem, derramei a minha primeira lágrima): “Somos livres, temos tudo, liberdade e liberdades!”
Texto de:
Ana Paula Nazar
aluna da turma 10.ºH (2023/2024)
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