(Des) Igualdade de género

Há uns dias, ao passar em revista as notícias de um determinado canal, fui confrontada com uma reportagem, que, nos dias de hoje, infelizmente, ainda me deixou a pensar e serve de base a esta reflexão.
Tal reportagem apontava para o desgaste físico e emocional que uma mãe, em tempos de confinamento, viveu ao desempenhar a sua atividade profissional (em casa) e, simultaneamente, desempenhar a sua função de mãe. Ao ouvir aquela mãe, não pude deixar de me questionar: Será que na sombra da pandemia da Covid-19 esteve presente a desigualdade de género?
Pois bem, na comemoração do 25.º aniversário da Conferência de Pequim sobre os direitos das mulheres, António Guterres descreveu, recentemente, a pandemia como uma “guerra oculta contra as mulheres” e alertou que, se não forem tomadas medidas de imediato, “a Covid-19 pode apagar uma geração de frágeis avanços em direção à igualdade de género”. De referir que, em 1995, na Conferência de Pequim, 189 países concordaram em priorizar a “participação plena e igualitária das mulheres na vida política, civil, económica, social e cultural ao nível nacional, regional e internacional, assim como erradicar todas as formas de discriminação com base no género”.
Nesta mesma cerimónia, Anita Bhatia, vice-diretora executiva da ONU Mulheres, sublinhava que “a pandemia tem um impacto muito profundo nas mulheres”, lembrando que são elas que estão na linha da frente da saúde na resposta à doença, dado que 70% dos profissionais de saúde e auxiliares são do sexo feminino. Para além disso, ocupam a maioria dos setores que foram mais atingidos pela crise: turismo e comércio. Acrescentou ainda que “a pandemia veio sobrecarregar a carga de trabalhos e de cuidados das mulheres, nomeadamente a nível doméstico. Antes da pandemia, as mulheres já dedicavam 4,1 horas nas limpezas de casa, cuidados dos filhos, compras e na confeção das refeições, em contraste com as 1,7 horas dedicadas pelos homens nas mesmas tarefas. Durante o período de confinamento, estima-se que as mulheres tenham dedicado 3 horas a mais às tarefas domésticas.
Pois bem, voltemos à nossa reportagem. Importante chamar a atenção para diversos aspetos da mesma: a mãe, curiosamente professora, referia que não foi o seu trabalho enquanto docente que a afetou, mas sim o facto de, ao ter os filhos em casa, não lhes ter prestado a devida atenção. Os meninos aparecem na reportagem sentados num sofá, em frente à televisão. Mas o mais curioso, na reportagem, foi ver que o pai também a trabalhar em casa, permaneceu, durante a exibição da mesma sentado no seu escritório, à frente do computador.
Com isto, não quero dizer que aquele pai não colabore nas tarefas domésticas. Mas não pude deixar de pensar se, esta reportagem não ia ao encontro do que foi referido em relação à sobrecarga de trabalho por parte da mulher, durante o período de confinamento.
Ora, numa época em que é suposto termos uma sociedade mais informada, mas também mais atenta e crítica face aos problemas do mundo contemporâneo, devemos perguntar-nos: Qual é o nosso papel enquanto pais, professores e educadores nestas questões? Não devemos nós, num tempo em que liberdade e igualdade são seriamente afetadas, contrariar perspetivas limitadas de ser e de estar, que colocam muitas vezes em causa a ideia de uma cidadania responsável?

Esse é, com efeito, um dos princípios que reside na base humanista do Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória; isto é, “a escola habilita os jovens com saberes e valores para a construção de uma sociedade mais justa, centrada na pessoa, na dignidade humana e na ação sobre o mundo enquanto bem comum a preservar.”
Chamar a atenção para estas questões deve passar por atos concretos que nos permitam, a todos, olhar criticamente para tudo o que vemos e ouvimos, não nos deixando iludir por discursos populistas que só contribuirão para limitar todo o tipo de liberdades. Enquanto sociedade não nos devemos demitir da nossa função de exercer uma cidadania ativa, mas também, inclusiva.
Podemos concluir, portanto, que aquela reportagem só veio levantar o véu de um problema que, mais do que biológico, é cultural. E enquanto continuarmos a cultivar e a aceitar este tipo de situações, não avançaremos nunca para uma sociedade mais igualitária e menos discriminatória.
Sónia Oliveira (professora do grupo 910 – Educação Especial)
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