A representação do herói na literatura e a sua importância na atualidade.

A 13 de janeiro de 1982, o avião Boeing 737-222 partiu do Aeroporto Nacional de Washington para o Aeroporto Internacional de Hollywood. Começou, como de costume, por levantar voo, mas não atingiu altura suficiente e acabou por colidir contra uma ponte situada sobre o rio Potomac! Derrubou 4 carros, 1 trator e morreram 6 pessoas sobre a ponte. Dos 79 passageiros, 73 não sobreviveram a colisão. O avião despistou-se sobre a ponte e atingiu o rio, quebrando as placas de gelo que se tinham formado por essa altura do ano, partindo-se ao meio. Na parte anterior do avião encontravam-se os 6 últimos sobreviventes. Estes tentaram, a todo o custo, escapar daquela prisão metálica, apenas para se verem rodeados de uma nova prisão: água frigidíssima e gelo que, a cada minuto que passava, lhes sugava, pouco a pouco, a vida…
Entretanto chegaram os socorros. Um helicóptero começou por sobrevoar o rio e a distribuir uma corda que possuía uma boia na sua extremidade. No entanto, no meio de toda essa confusão, houve um passageiro que se destacou: ele recebia a corda, mas em vez de colocar a boia à volta da cintura, entregava-a ao passageiro ao lado. Repetiu isto 5 vezes. Recebia a boia e entregava-a ao passageiro ao lado. Os 5 cinco passageiros foram então recuperados são e salvos, mas quando chegou a sua vez ele tinha sucumbido debaixo da superfície de água, arrastado pelos troços do avião que, entretanto, se tinham afundado!
Um verdadeiro herói, não é verdade? E é sobre a representação do herói na literatura e a sua importância na atualidade que falaremos hoje.
Se passarmos em revista todas as histórias que foram sendo criadas, desde que o ser humano inventou a linguagem até aos nossos tempos, vamos deparar-nos com um número incontável de heróis. Possivelmente, o primeiro exemplo que nos vem à cabeça (e sem retirar o mérito à Helena) são os heróis da Antiguidade Clássica. Quem nunca ouviu falar de Hércules, Aquiles ou Ulisses. Esses heróis, apesar de apresentarem traços particulares, as suas personalidades reduzem-se às mesmas virtudes: por um lado, a coragem, a virilidade e a bravura; por outro, a ternura, a compaixão e os afetos. Mas hoje, a característica do heroísmo que gostaria de sublinhar é a capacidade de superação. Por exemplo, na Antiguidade Clássica havia dois mundos: o mundo dos mortais e o mundo dos deuses. E esses heróis representavam uma mediação entre esses dois mundos. No entanto, para se revelarem dignos de ascenderem, tinham de ultrapassar determinados obstáculos.
No que diz respeito a literatura ocidental, essa conceção clássica do herói é um pouco desafiada por Cristo, por duas grandes razões: por um lado, Cristo possui uma representação histórica; sabemos que ele existiu, o que o separa um pouco do mito greco-romano; por outro lado, Cristo abraça um conjunto de valores heroicos e eleva-os a um expoente mais alto, como o sacrifício e o amor, próprios da doutrina cristã. Deste modo, influencia vários séculos de literatura, definindo o paradigma de herói, especialmente durante a Idade Média. De qualquer modo, assistimos em Cristo, novamente, a capacidade de superação. Possivelmente, o melhor exemplo que vos posso trazer é de quando se encontrava no jardim de Getsémani, com a crucificação prestes a ocorrer, ponderando a possibilidade de escapar. O seu corpo encontrava-se humedecido por gotas de suor e sangue, destiladas perante o terror daquela morte cruel. No entanto, decide-se: Pai, não seja feita a minha vontade, mas a tua.
E ainda hoje quando nos deparámos com as frases mais icónicas dos heróis da DC ou da Marvel, vemos novamente a tal ideia de superação, de ir para além dos nossos limites, de ultrapassar os nossos obstáculos…. É o que vemos nas palavras do Green Lantern, quando diz: Sim, eu tenho medo, mas isso não me vai derrubar! Ou nas palavras da Mulher Maravilha: Eu não sei onde estarei amanhã, mas sei que o amanhã há de vir e vou erguer-me para o enfrentar! A verdade é que a conceção do herói se move em torno da mesma ideia desde o princípio da literatura.
O académico Joseph Campbell dedicou vários anos de estudo aos mitos e lendas de diferentes culturas e chegou precisamente a essa conclusão. Todos os heróis percorrem uma só jornada. Todos partem de algum mundo ordinário, separam-se, ingressam um mundo especial no qual enfrentam peripécias e obstáculos…. Eventualmente arrecadam um tesouro e, se tudo correr bem, regressam ao mundo ordinário para o partilhar com os seus entes queridos. Se repararem, era essa a estrutura das nossas primeiras narrativas na primária. Começávamos com: Era uma vez um herói que… vivia no tal mundo ordinário. Depois, no primeiro parágrafo do desenvolvimento, ele separava-se e ingressava no mundo especial. Seguiam-se as peripécias, o grande obstáculo e o tesouro. Na conclusão, se tudo corresse bem, o nosso herói regressava ao mundo ordinário para partilhar o tesouro com os seus familiares e amigos. É essa jornada que vemos em histórias como Harry Potter, The Hunger Games ou O Senhor dos Anéis. A verdade é que essa jornada é universal. E é universal porque reflete o que há dentro de cada um de nós. Cada um de nós enfrenta as suas jornadas, passa por peripécias e obstáculos, que exigem sacrifícios, sim… Mas sempre valem a pena, porque no final encontramos o tesouro que podemos partilhar com quem mais amamos. Os heróis da literatura percorrem todos a mesma jornada precisamente porque nós, seres humanos, quando passamos do mundo real para a literatura, temos a tendência em representar o que está dentro de nós. Para concluir, permitam-me terminar do seguinte modo:
Joseph Campbell disse que todos os heróis literários são, na verdade, um só, mas com várias faces. E eu vos pergunto: querem ser uma dessas faces?
Autor: Eleazar Pereira, aluna da turma C do 12º ano
![]()

