Bússola Estudantil

Jornal escolar da Escola Secundária de Loulé

Concurso Literário Juvenil -2022

1.º Classificado – Darla é a aluna Laura Santos do 11.º J;

Não é fácil ser-se neta de uma estrela de cinema.Não é fácil ter uma avó estrela de cinema, que não é só nossa, por ser partilhada com toda a gente.Não é fácil conhecer realmente a nossa avó, que por acaso é uma estrela de cinema, quando, nas poucas vezes em que nos vemos, há sempre paparazzi a seguirem-nos para todo o lado, juntamente com dezenas de fãs que carregam retratos dela, e que nos abordam, com demasiada energia para o meu gosto, esperando um autógrafo, um abraço e uma selfie.Ter uma avó estrela de cinema é difícil, sobretudo quando não temos nada em comum – tanto por dentro como por fora.A “Deslumbrante Doris”, como assim a chamam, tem uns longos e volumosos caracóis loiros e eu tenho cabelo castanho e curto que mais parece ter sido passado a ferro. Ela tem olhos azuis-claros cintilantes, eu tenho uns tão escuros que a íris mal se vê. A minha avó, mesmo com 68 anos, é alta e elegante, mas quanto a mim, a sua neta de 17 anos, não se pode dizer a mesma coisa (sou eu quem tem as costas encurvadas e é ela a idosa aqui!).Em suma, fisicamente, não vejo qualquer semelhança. Não somos parecidas. Se nos vissem juntas, o mais certo era pensarem que sou a sua guarda-costas, embora não tenha altura para isso.Quanto à maneira de ser, também não encontro parecenças – enquanto ela é a pessoa mais extrovertida, confiante, determinada e única que conheço, eu prefiro evitar pessoas, não me considero confiante, sou demasiado preguiçosa para levar algum plano avante e, honestamente, não me podia sentir mais normal.Era impossível sermos mais diferentes. Ou, pelo menos, era o que eu pensava.Recentemente, descobri que temos uma coisa em comum: não suportamos injustiças.Mas, quem suporta? Respondendo à minha pergunta, aparentemente, ingénua: Muita gente. Muita gente mesmo.Tudo começou quando eu estava na praça, a andar de skate de fones nos ouvidos – só eu, imersa na minha música e perdida algures nos meus pensamentos. Estava a andar sem rumo, rápido, mas sem pressa para chegar a lado nenhum. O piso era liso, o clima ameno, mas, o vento estava contra mim. Despenteou-me, fazendo com que os meus cabelos me tapassem a vista de tal forma que, a certa altura, choquei contra algo. Ou alguém.Dei por mim no chão, com as mãos no alcatrão e os joelhos esfolados. Miraculosamente, o skate permanecia intacto a meu lado. Pelo menos isso.Era uma manhã de verão em que o Sol estava bem forte, mas, estranhamente, não fui atacada por raios invasivos quando consegui, finalmente, abrir os olhos. Em vez disso, notei que algo, muito maior que eu, estava a fazer-me sombra. Olhei para cima, com a vista meio turva e a cabeça a latejar, e encontrei o tronco de alguém alto e maciço. Além deste, estavam outros dois jovens com a mesma constituição, os três juntos, a fazer uma espécie de barreira que impossibilitava também a passagem no passeio.Com alguma dificuldade e ainda a recuperar do impacto, levantei-me e, quando me preparava para pedir desculpa e seguir caminho, ouvi, apesar do barulho contínuo e ensurdecedor que entoava nos meus tímpanos, um deles soltar uma exclamação:- Agora! – O tipo que estava no passeio agarrou o braço fininho e enrugado de uma senhora que acabara de fazer a esquina e ouviu-se o estrondo de uma bengala de carvalho a tombar no chão. Enquanto este a imobilizava, os outros dois marmanjos vasculhavam-lhe os bolsos do avental e a malinha de mão. Primeiramente, a velhinha ficou branca como a cal, mas, logo a seguir, quando o sangue regressou ao cérebro, tentou soltar-se, inutilmente.Eu não sabia o que fazer. Mas sabia que tinha de fazer alguma coisa.Aflita, olhei em redor. Várias pessoas observavam a injusta situação e nada faziam.Continuavam as suas vidas como se nada fosse. Será que não estavam a ver o mesmo que eu?Nasceu em mim uma raiva efervescente e senti-me pronta a explodir. Mas, em vez de rebentar, como não guio as minhas atitudes pelas dos outros, decidi fazer algo mais que observar, comentar e ignorar.Ao fim de 30 segundos, o gangue obtivera o que queria – um envelope branco com o símbolo do banco, a reforma da pobre velhota – e, sem qualquer cuidado ou preocupação, largaram a senhora debilitada e frágil, começando a correr desalmadamente.Rapidamente, dei a mão à velhinha, ajudando-a a levantar-se.- Obrigada, minha linda. – Disse ela ainda a tremer, com os músculos da cara contraídos numa tentativa de sorriso.- Não me agradeça ainda. – E pus-me em cima do skate.Acho que nunca tinha andado de skate tão rápido na minha vida. Persegui-os pela rua principal, desviando-me das pessoas e das banquinhas. Apanhei-lhes o ritmo passados apenas alguns minutos pois, para ladrões, não tinham lá muito jeito para correr. Ou era a primeira vez deles, ou estavam a pedir para serem presos, ou, ainda, acharam que ninguém se importaria se uma entre os milhares de idosas da nossa vila envelhecida não recebesse a sua merecida reforma para que trabalhou a vida inteira. Mas, honestamente, o motivo, para mim, era irrelevante – tinham cometido um crime, prejudicaram alguém, e, se dependesse de mim, iam pagar por isso.Assim que me viram, tentaram acelerar, com um ar surpreendido e cansado que contrastava com o meu olhar frio, furioso e acusador – aquele olhar. Desesperados, viraram para um beco sem saída e encostaram-se a umas paredes antigas para recuperarem forças. Não quiseram saber se eu estava atrás deles ou não, já não aguentavam. Alcancei-os, com a minha tábua com rodas debaixo do braço, e, assim, dirigi-me ao rapaz que tinha visto anteriormente com o envelope na mão.- Devolve-mo! – Exigi, num tom confiante. Senti-me poderosa e destemida até eles se levantarem do chão. Para os olhar nos olhos, tinha de olhar bem para cima, o que me tirava a autoridade e causava dores de cabeça.Mas não me importei com isso.Estendi a mão, à espera de que me desse o que não lhe pertencia. Nesse momento, ele levou a mão ao bolso, os outros desataram a rir e, de repente, senti um calafrio na espinha.Petrifiquei com o pensamento que tomou conta da minha mente: e se ele tem uma arma?Numa questão de segundos, agarraram-me pelos braços e elevaram-me no ar. O barulho do skate a cair no chão ecoou nas paredes degradadas e o bater do meu coração fez o mesmo nos meus ouvidos.Esperneei, tentando soltar-me, mas, as minhas tentativas falhadas transformaram o seu cansaço em poder e a minha coragem em medo.- É tão fofinha, a pensar que pode salvar o mundo – Gozou o líder do trio, enquanto os emplastros continuavam a rir sem parar – O mundo é cruel, princesa. Habitua-te.Engoli em seco, irritada e furiosa. Continuei a espernear, sem efeito, até ficar cansada ao ponto de nem conseguir conter mais as lágrimas. Só me restava pedir socorro, e esperar que não me ignorassem também.- SOCORRO! AJUDA! ALGUÉM?Eles estavam a aproveitar cada segundo da situação, troçando da minha personalidade, da situação em que me tinha metido e da posição em que me encontrava. Mas, felizmente, o seu momento glorioso e de diversão durou pouco.O barulho de sapatos rasos acompanhado por uma respiração ofegante invadiu o caminho velho em que nos encontrávamos e, num ápice, uma bengala de carvalho deitou ao chão os três matulões e, consequentemente, a mim.Senti-me a ser arrastada por uma mão muito leve e enrugada e, ao reconhecer o cheiro a sabão e jasmim, entre lágrimas de alívio, esbocei um pequeno sorriso, sussurrando –Obrigada.- Não me agradeças ainda, querida. – E a velhota levou-me pela mão, até chegarmos à porta de uma casinha térrea e modesta. Ela tirou uma chave do avental, colocou-a na ranhura, rodou a maçaneta e guiou-me por um corredor estreito em direção a uma minúscula cozinha em tons cor-de-laranja. – Senta-te e põe-te à vontade, minha filha. Vou pôr a chaleira ao lume.Anui e cumpri a ordem. Sentei-me num sofá de couro e coloquei uma manta nas costas para acalmar os tremores. Minutos depois, a senhora trouxe um chá para cada uma e sentou-se ao meu lado.- Obrigada pelo chá. E por me salvar daquela situação. – Agradeci, aquecendo as mãos na chávena. – Peço desculpa por não ter conseguido recuperar o seu envelope. – Disse eu enquanto dirigia meu olhar para a carpete branca sob os meus pés, desapontada comigo mesma.Ela pousou a sua bebida na mesa à nossa frente, colocou uma mão na minha perna, e olhou-me de uma forma ternurenta. – Salvaste-me a vida e, graças a ti… – Ela retirou do bolso do avental um envelope recheado e agitou-o, triunfalmente – recuperei-o.Instantaneamente, os meus olhos brilharam e um sorriso gigante e aberto irrompeu pelos meus lábios, fazendo com que os músculos das bochechas me doessem. – Conseguiu!- Conseguimos. E eu é que te tenho de agradecer. Não sei o que teria feito ou o que teria sido de mim sem ti, Doris.- Doris? – Perguntei, de semblante franzido.- Ai, que cabeça! – A idosa levou a mão à testa. – És a neta da Doris, não és?- Como é que sabe? – Questionei, genuinamente interessada. O que tinha a minha avó a ver com este assunto? Com esta senhora?- Eu vi logo. – Ela ignorou a minha pergunta. Soltou uma gargalhada, agarrou nas minhas mãos e disse: – Querida, tu és o retrato dela.Só pode estar a brincar comigo. Agora sou eu quem ri.- Essa foi a piada do dia, decididamente.- Que disparate! Porque dizes isso, minha filha?- Nós não somos nada parecidas! Os nossos olhos, o nosso cabelo, a nossa personalidade… completamente diferentes! – Digo isto num tom um pouco mais alto do que desejava.- Eu e tu também temos os olhos da mesma cor, e isso não faz de nós iguais, pois não?Reconheci-te mal te vi. Não pela cor do teu cabelo, pelas tuas formas ou pelas tuas opiniões. – A velhota levanta-se e caminha para outra divisão, deixando-me com ainda mais perguntas. Será que eu e a minha avó partilhamos realmente alguma coisa além do mesmo apelido?Minutos depois, ela regressa com vários álbuns de fotografias. Volta a sentar-se, entrega–mos e diz: – Vê por ti própria. Vocês têm o mesmo olhar.Ela liga a televisão e eu preparo-me para descobrir o passado da mãe do meu pai através desta senhora que, aparentemente, dada a quantidade de álbuns que tem intitulados como “Débora e Dóris”, conhece muito bem a minha avó.Acho que folheei aqueles álbuns por horas. Aquela senhora tinha toda a razão: em todas as fotografias, sem exceção, aquele olhar estava lá. No primeiro dia de aulas da Débora e da Dóris, na primeira comunhão da Débora e da Dóris, no primeiro baile da Débora e da Dóris, nos vários piqueniques da Débora e da Dóris.Nessa tarde, além dos momentos impressos e presentes naqueles álbuns, a tia Débora (insiste que eu a trate dessa forma, o que, honestamente, não me soa assim tão mal), ela contou-me vários episódios em que a minha avó, assim como eu, se colocou em situações arriscadas para ajudar completos desconhecidos. Até diz que foi assim que conheceu o meu avô.Fiquei a conhecer grande parte da vida da minha avó sem precisar de estar ao seu lado.Sem precisarmos de falar. Mas, a verdade é que, pela primeira vez, quero mesmo conversar com ela. Perguntar-lhe acerca da bombeira voluntária Dóris, da bibliotecária Dóris, da cozinheira Dóris e da lutadora Dóris que, como provam aquelas fotografias e as cartas que trocava com a amiga, teve de ter muita força para construir a “Deslumbrante Dóris” que todos conhecem, ou pensam conhecer.Realmente, não é fácil ser-se neta de uma estrela de cinema.Se bem que, também não dever ser fácil ser-se, simultaneamente, avó e estrela de cinema.Deve ser difícil tentar corresponder às expetativas dos seus fãs obcecados e estar presente nas inúmeras reuniões em que outros decidem o rumo da sua carreira, por exemplo.Mas, o que não deve ser nada fácil é querer e não poder arranjar tempo para conhecer a sua família e, especialmente, a sua neta que, afinal, é o seu retrato.

Darla

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