{"id":3375,"date":"2024-11-07T15:06:27","date_gmt":"2024-11-07T15:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/?p=3375"},"modified":"2024-11-07T15:06:27","modified_gmt":"2024-11-07T15:06:27","slug":"liberdade-ou-liberdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/blog\/2024\/11\/07\/liberdade-ou-liberdades\/","title":{"rendered":"LIBERDADE OU LIBERDADES?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Texto vencedor do Concurso Liter\u00e1rio Juvenil da Escola Secund\u00e1ria de Loul\u00e9 (edi\u00e7\u00e3o 2023\/2024)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura-1024x1024.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3378\" data-full-url=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura.jpg\" data-link=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/?attachment_id=3378\" class=\"wp-image-3378\" srcset=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura-300x300.jpg 300w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura-150x150.jpg 150w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura-768x768.jpg 768w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/cartaz-semana-da-leitura.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Cartaz da semana da Leitura de 2024, momento em que os textos candidatos ao Concurso Liter\u00e1rio Juvenil foram entregues<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Liberdade ou Liberdades? \u00c9 s\u00f3 uma ou existem v\u00e1rias? Tantas vezes j\u00e1 refleti sobre as mil promessas proclamadas por Salazar e Caetano que pintam nada mais do que uma ilus\u00e3o. Tantos me desprezam e numerosos s\u00e3o simplesmente requintadas pe\u00e7as de xadrez, e \u00e9 por isso que derramo tudo por aquilo que passei numa mera folha de 5 escudos. Escrevo isto na claridade e luz do dia 24 de abril de 1974, preparado para a onda de mudan\u00e7as que vir\u00e1 junto com os cravos que comprei segunda-feira no florista ao lado da porta da minha velha e silenciosa casa. Lembro-me de ter visto os agentes a levarem um colega que andou na escola comigo (t\u00e3o corados que fic\u00e1vamos quando avist\u00e1vamos as raparigas); queria protestar, mas tinha de manter a postura para o mal evitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Meti os cravos num vaso, e comecei a ler o &#8220;Jornal das Not\u00edcias&#8221; para me iludir e sonhar com mentiras propagadas pela censura, pensando na mesma sobre as almas silenciadas e as complica\u00e7\u00f5es omitidas. No fim das contas o Z\u00e9 Povinho \u00e9 s\u00f3 mais uma personagem que n\u00e3o contribui para a imagem perfecionista de Portugal. Afinal como podemos n\u00f3s sujar e contaminar a nossa ilustre na\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 est\u00e1 na hora de almo\u00e7ar mas n\u00e3o tenho nenhum gosto em comer sabendo que h\u00e1 crian\u00e7as que nem uma migalha a seu nome t\u00eam. Imensamente estou eu agradecido a meu pai que trabalhou duro (e de quem a alma foi roubada pela guerra colonial na Guin\u00e9 e pelo pr\u00f3prio Estado) para sustentar a nossa modesta fam\u00edlia. Esse grande homem, cego \u00e0 realidade, prestou a sua vida ao governo de forma igual a um c\u00e3o leal e morreu feito de burro. Tanto a not\u00edcia da sua morte me angustiou que berrei a minha alma fora e gritei as mais mal apropriadas palavras que foram incapazes de comunicar a minha como\u00e7\u00e3o. Que deem fim a essas malditas guerras!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3 por sua causa que vivo agora com escudos suficientes para andar por esta terra de uma forma minimamente digna. Tamb\u00e9m tinha a mulher mais guerreira que uma vez j\u00e1 conheci, minha m\u00e3e, que agora descansa no seu fr\u00e1gil t\u00famulo de madeira onde o sol n\u00e3o nasce. Foi ela que protestou e deu voz a esse tal &#8220;Z\u00e9 Povinho&#8221;, sacrificando a sua pr\u00f3pria vida e deixando-a atr\u00e1s das barras de uma cadeia quando foi detida pela DGS (pela segunda e \u00faltima vez). Raz\u00f5es por quais foi detida eram est\u00fapidas e n\u00e3o compreens\u00edveis do ponto de vista de um cidad\u00e3o comum; na primeira vez foi suspeita de ouvir m\u00fasicas que foram proibidas pela Estado; na segunda vez foi levada pelo cabelo at\u00e9 \u00e0 cadeia por ter criticado o Estado de forma extremamente clara. Foi l\u00e1 que faleceu depois de ter levado com um murro na cabe\u00e7a por &#8220;n\u00e3o calar a boca&#8221;. Enfim, o seu \u00fanico e verdadeiro desejo era ser livre e ter um marido e filho salvos, por\u00e9m acabou por lhe ser roubado o direito de viver pelo pr\u00f3prio que jurava proteger o povo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 est\u00e1 quase a anoitecer, sete da tarde s\u00e3o. Fechei as cortinas, tranquei as portas, para do mundo real me desapegar. Tirei o r\u00e1dio que tinha escondido, li a \u00faltima carta do meu pai que me restava e relembrei os velhos e nost\u00e1lgicos tempos que queria apagar da minha mem\u00f3ria. Ainda consigo ouvir as crian\u00e7as a brincar, os militares a desconfiar, e as m\u00e3es a gritar pelos pequeninos. Nenhum desses elementos suspeita o que ir\u00e1 vir junto com o nascer do sol do dia 25, o nascer de uma nova na\u00e7\u00e3o. Uma na\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Confirmei as informa\u00e7\u00f5es que me foram fornecidas pelo meu conhecido do MFA, um bom amigo familiar que conhecia os meus pais desde que crian\u00e7a e que, como capit\u00e3o, teve sorte de conseguir escapar \u00e0 morte cruel e desumilde da guerra. Farto estou eu de fingir e ser ignorante em rela\u00e7\u00e3o a aquele que est\u00e1 no &#8220;trono&#8221;; estou enfastiado de dar desculpas, ouvir os choros das m\u00e3es cada vez que lhe \u00e9 dada uma nova carta e ver as meninas com grandes pesos nas suas min\u00fasculas costas. Contudo, meterei o cravo na minha espingarda (que me foi passada pelo meu pai) e irei esperar pelo aparecimento das luzes divinas por tr\u00e1s dos montes junto com a m\u00fasica que ir\u00e1 encher os cora\u00e7\u00f5es de adrenalina e sentimento de realiza\u00e7\u00e3o. T\u00e3o esperan\u00e7oso estou eu de ouvir a voz do Zeca Afonso por mais uma vez&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta noite n\u00e3o irei para o mundo dos sonhos mas ficarei com a espingarda na m\u00e3o, com as cortinas fechadas e r\u00e1dio ligado ouvindo as can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Despertou no in\u00edcio do dia 25 &#8220;Gr\u00e2ndola Vila Morena&#8221; junto com a qual despertou a revolu\u00e7\u00e3o. Todo o pa\u00eds foi tomado por n\u00f3s, pelo povo, pelo cora\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Pessoas a dormir enquanto acordava a liberdade; medo, confus\u00e3o, barulho e o desconhecimento nunca tiveram um sabor t\u00e3o doce. Sa\u00edmos pela rua, com as espingardas na m\u00e3o, a distribuir cravos e a gritar: &#8220;Viva Portugal, viva a na\u00e7\u00e3o!&#8221;. Os inimigos da DGS n\u00e3o eram mais nada do que fingidos que acabaram por juntar-se \u00e0 aglomera\u00e7\u00e3o; j\u00e1 n\u00e3o obedeciam a ningu\u00e9m (nem ao pr\u00f3prio Caetano) e agiam por si s\u00f3, agiam como o povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ara assim a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, que encheu as ruas de l\u00e1grimas alegres e gritos comemorativos. Nunca tanta confus\u00e3o me tinha aquecido o cora\u00e7\u00e3o. Finalmente voltaram o verde e o dourado \u00e0 bandeira de Portugal e ouvi aquilo que tanto queria ouvir: &#8220;Somos livres!&#8221;, &#8220;Temos liberdade!&#8221;, &#8220;Temos liberdades!&#8221;. Afinal a resposta era t\u00e3o \u00f3bvia (foi nesse momento que eu, homem, derramei a minha primeira l\u00e1grima): &#8220;Somos livres, temos tudo, liberdade e liberdades!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Texto de:<br><strong>Ana Paula Nazar<\/strong><br>aluna da turma 10.\u00baH (2023\/2024)<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:80px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div><p id=\"pvc_stats_3375\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"3375\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" src=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 \/><\/p><div class=\"pvc_clear\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto vencedor do Concurso Liter\u00e1rio Juvenil da Escola Secund\u00e1ria de Loul\u00e9 (edi\u00e7\u00e3o 2023\/2024) Liberdade ou Liberdades? \u00c9 s\u00f3 uma ou existem v\u00e1rias? 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