{"id":1768,"date":"2023-02-06T11:55:20","date_gmt":"2023-02-06T11:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/?p=1768"},"modified":"2023-05-21T16:13:50","modified_gmt":"2023-05-21T16:13:50","slug":"palestra-hannah-arendt-e-a-banalidade-do-mal-23-de-janeiro-de-2023-14-20-h-16-10-h","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/blog\/2023\/02\/06\/palestra-hannah-arendt-e-a-banalidade-do-mal-23-de-janeiro-de-2023-14-20-h-16-10-h\/","title":{"rendered":"Palestra \u201cHannah Arendt e a banalidade do mal\u201d \u2013 23 de janeiro de 2023 \u2013 14.20 h -16.10 h"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Arbeit_macht_frei_sign_main_gate_of_the_Auschwitz_I_concentration_camp_Poland_-_20051127-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1775\" srcset=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Arbeit_macht_frei_sign_main_gate_of_the_Auschwitz_I_concentration_camp_Poland_-_20051127-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Arbeit_macht_frei_sign_main_gate_of_the_Auschwitz_I_concentration_camp_Poland_-_20051127-300x225.jpg 300w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Arbeit_macht_frei_sign_main_gate_of_the_Auschwitz_I_concentration_camp_Poland_-_20051127-768x576.jpg 768w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Arbeit_macht_frei_sign_main_gate_of_the_Auschwitz_I_concentration_camp_Poland_-_20051127.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Autor: Tulio Bertorini<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Autor: Helder Louren\u00e7o &#8211; Professor de Filosofia, Departamento de Ci\u00eancias sociais e Humanas (410)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Celebra\u00e7\u00e3o do Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto (27 de janeiro)<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>(Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto \u2013 dia da liberta\u00e7\u00e3o do Campo de Concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz-Birkenau em 27 de janeiro de 1945 \u2013 Resolu\u00e7\u00e3o 60\/7 da 42.\u00aa Sess\u00e3o Plen\u00e1ria da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 1 de novembro de 2005).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"906\" src=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/640px-Hannah_Arendt_1933.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1777\" srcset=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/640px-Hannah_Arendt_1933.jpg 640w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/640px-Hannah_Arendt_1933-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Autor desconhecido<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Hannah Arendt (1906-1975) foi uma fil\u00f3sofa alem\u00e3 e norte-americana de origem judaica que procurou compreender de que modo foi poss\u00edvel acontecer o Holocausto e sobretudo o mal que o gerou.<\/p>\n\n\n\n<p>Hannah Arendt tornou-se refugiada \u00e9tnica, cultural e pol\u00edtica em resultado da ascens\u00e3o na Europa dos regimes totalit\u00e1rios, opressores dos direitos humanos, das d\u00e9cadas de 1920, 1930 e 1940 do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Dada a sua origem judaica e o seu pensamento livre, perseguida pelo regime nacional-socialista alem\u00e3o, que ascendeu ao poder em 1933, foi-lhe retirada a nacionalidade alem\u00e3. Tendo iniciado uma carreira acad\u00e9mica brilhante, doutorada em Heidelberg em 1928 com uma disserta\u00e7\u00e3o sobre \u201cO Conceito de Amor em Santo Agostinho\u201d, foi-lhe negada, por\u00e9m, a defesa de uma segunda disserta\u00e7\u00e3o, que lhe permitiria a agrega\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de uma carreira universit\u00e1ria na Alemanha. Depois de presa pela pol\u00edcia pol\u00edtica durante 8 dias em 1933, refugiou-se em Paris, passando por Karlsbad (Checoslov\u00e1quia), G\u00e9nova (It\u00e1lia) e Genebra (Su\u00ed\u00e7a).<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ocupa\u00e7\u00e3o de Paris pelas tropas do ex\u00e9rcito alem\u00e3o em 1940, foi internada no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Gurs no sudoeste de Fran\u00e7a, do qual conseguiu fugir para Espanha e depois Portugal. Em maio de 1941, emigrou por via mar\u00edtima de Lisboa para Nova Iorque, Estados Unidos da Am\u00e9rica, onde conseguiu trabalho em v\u00e1rios jornais e revistas. Alcan\u00e7ou a nacionalidade norte-americana em 1951. Em 1953, devido ao sucesso das suas publica\u00e7\u00f5es, consegue finalmente um lugar como professora universit\u00e1ria, embora prec\u00e1rio e a prazo, no Brooklyn College de Nova Iorque, podendo dedicar-se de novo \u00e0 carreira acad\u00e9mica e \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre maio e junho de 1961, a seu pedido, Arendt escreveu uma s\u00e9rie de reportagens, para a revista \u201cThe New Yorker\u201d, de cobertura do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusal\u00e9m. Adolf Eichmann foi um dos principais respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o log\u00edstica do Holocausto. Terminada a II Guerra Mundial na Europa em 8 de maio de 1945, conseguiu escapar aos julgamentos de alguns dos maiores criminosos de guerra em Nuremberga, fugindo para a Argentina, onde foi capturado pelos servi\u00e7os secretos israelitas (Mossad) em Buenos Aires em 1960.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"428\" src=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Selection_on_the_ramp_at_Auschwitz-Birkenau_1944_Auschwitz_Album_1a.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1779\" srcset=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Selection_on_the_ramp_at_Auschwitz-Birkenau_1944_Auschwitz_Album_1a.jpg 640w, https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Selection_on_the_ramp_at_Auschwitz-Birkenau_1944_Auschwitz_Album_1a-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Autor an\u00f3nimo, no entanto algumas fontes aponta o autor como sendo um oficial SS, Ernst Hoffmann ou Bernhard Walter<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Adolf Eichmann (1906-1962) tinha sido um dos principais respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o e de exterm\u00ednio em massa, criados na Alemanha como em quase todos os pa\u00edses ocupados, sobretudo na Pol\u00f3nia. Mas foi tamb\u00e9m um dos principais respons\u00e1veis pelo transporte e deporta\u00e7\u00e3o de seres humanos em vag\u00f5es de gado, da encomenda dos fornos cremat\u00f3rios e do g\u00e1s para os matar, da sua escraviza\u00e7\u00e3o em massa em campos de trabalho para a produ\u00e7\u00e3o de armamento, entre muitos outros produtos industriais e atividades laborais, assim como pelo aproveitamento industrial de restos humanos, antes e depois da crema\u00e7\u00e3o, ainda a possibilidade da realiza\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias m\u00e9dicas em seres humanos, sem quaisquer considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um lema c\u00ednico era colocado no topo dos port\u00f5es de entrada dos campos de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio e de muitas instala\u00e7\u00f5es penais: \u201cArbeit macht frei\u201d (\u201cO trabalho liberta\u201d \u2013 do &nbsp;inferno da vida de um condenado, pela sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica ou pol\u00edtica ou de ser diferente, a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-homem [\u201cUnmensch\u201d], a de n\u00e3o-ser-humano). Este lema foi colocado tamb\u00e9m nos port\u00f5es de entrada do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz. Outro lema utilizado na persegui\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, ideol\u00f3gica e pol\u00edtica do regime que dominou a Alemanha entre 1933 e 1945, foi o de \u201cVernichtung durch Arbeit\u201d (\u201cExterm\u00ednio pelo trabalho\u201d). Ainda um terceiro lema, tamb\u00e9m frequentemente utilizado como palavra de ordem ou em campos de concentra\u00e7\u00e3o, era \u201cJedem das Seine\u201d (literalmente, \u201cA cada um o seu\u201d, no sentido de \u201cA cada um aquilo que merece\u201d). Estes lemas dizem quase tudo sobre o que n\u00e3o devemos nem podemos aceitar, quando tratamos de seres humanos, seja em que circunst\u00e2ncia for.<\/p>\n\n\n\n<p>Da s\u00e9rie de reportagens escritas para a revista \u201cThe New Yorker\u201d em 1961, resultou um livro publicado com o t\u00edtulo de \u201cEichmann em Jerusal\u00e9m. Uma reportagem sobre a banalidade do mal\u201d (1963) [Lisboa: Ed. \u00cdtaca, 2021]. &nbsp;O que mais espantou Hannah Arendt durante o julgamento, foi encontrar em Adolf Eichmann n\u00e3o o ser demon\u00edaco, horrendo e maldoso que os seus atos fariam prever e as suas v\u00edtimas sobreviventes sentiam ser, mas sim, na sua an\u00e1lise, um ser humano normal, um ser humano banal.<\/p>\n\n\n\n<p>A banalidade do mal e da sua ascens\u00e3o ao poder desenvolve-se da seguinte forma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Primeiro passo<\/strong>: declara-se na sociedade um determinado grupo de indiv\u00edduos como n\u00e3o partilhando um conjunto de caracter\u00edsticas humanas comuns a todas as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo de aspetos circunstanciais, que poder\u00e3o ser a sua extrema pobreza, a cor da pele, a linha do rosto, do nariz ou das orelhas, a forma do cabelo, a cor dos olhos, a situa\u00e7\u00e3o de uma minoria que professa outra f\u00e9 ou culturalmente apresenta outras pr\u00e1ticas sociais, declara-se esse conjunto de pessoas como n\u00e3o humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Explora-se ent\u00e3o, de modo sistem\u00e1tico e recorrente, n\u00e3o as semelhan\u00e7as, mas as diferen\u00e7as, para se desenvolver um discurso de \u00f3dio, rep\u00fadio e nojo pelo outro, sendo determinadas falhas de car\u00e1ter e de personalidade atribu\u00eddas como t\u00edpicas ou exclusivas de um determinado grupo \u00e9tnico, pol\u00edtico, social ou religioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Declara-se depois um conjunto de seres humanos como inumanos, n\u00e3o-humanos. Por isso, n\u00e3o devem tamb\u00e9m fazer parte do bem comum. Por conseguinte, n\u00e3o devem possuir tamb\u00e9m direitos de cidadania, direitos civis, nem ser titulares dos direitos que reservamos \u00e0s pessoas enquanto seres jur\u00eddicos, como os direitos sociais, culturais e de propriedade, pois n\u00e3o ser\u00e3o pessoas, ser\u00e3o n\u00e3o-pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao instituir-se uma deprecia\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas humanas nesse grupo, aproveitam-se aspetos caricaturais que os fa\u00e7am parecer-se com qualidades ou animais desprez\u00edveis aos sentimentos culturais do grupo etnicamente dominante, como ratos, vampiros ou cobras, como aconteceu no caso dos judeus e dos povos eslavos, por parte dos nacionais-socialistas alem\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento em que se desligam as distin\u00e7\u00f5es entre certo e errado, entre bem e mal, na procura do bem, torna-se f\u00e1cil uma distin\u00e7\u00e3o entre os bons (os humanos), e os maus (os inumanos ou n\u00e3o-humanos). \u00c9 a consequ\u00eancia de, entre pessoas, se procurar estimular n\u00e3o aquilo que as aproxima, mas sim de se procurar exacerbar de forma exagerada aquilo que as separa.<\/p>\n\n\n\n<p>Teremos criado ent\u00e3o uma divis\u00e3o nos indiv\u00edduos sociais, entre pessoas e n\u00e3o-pessoas. At\u00e9 os mais cru\u00e9is dos torturadores ou assassinos se poder\u00e3o sentir a partir de agora boas pessoas. Tratar\u00e3o bem aqueles que podem considerar pessoas. N\u00e3o estar\u00e3o a agir mal quando maltratam, torturam, escravizam, exploram ou exterminam n\u00e3o-pessoas, pois n\u00e3o se trataria de pessoas, mas sim de outros seres, desprez\u00edveis aos sentimentos humanos como certas esp\u00e9cies de animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o admitirmos uma no\u00e7\u00e3o universal de ser humano, em que possam caber todas as pessoas, sem exce\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o teremos conclu\u00eddo o primeiro passo para que se desenvolva a banalidade do mal, para que o mal se possa generalizar e tornar-se vulgar, em todas as pessoas sem exce\u00e7\u00e3o, mesmo nas que anseiam, desejam ou desejem vir a praticar o bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Se as decis\u00f5es que tomamos na distin\u00e7\u00e3o entre certo e errado deixarem de ser racionais, desligando-se o pensamento cr\u00edtico discursivo, orientando-se por sentimentos de medo, de avers\u00e3o, de \u00f3dio, de nojo relativamente ao outro, n\u00e3o o identificando como humano, como pessoa, o resultado s\u00f3 poder\u00e3o ser m\u00e1s decis\u00f5es, n\u00e3o boas decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que de algum modo suceda inconscientemente, no entanto, porque se viola a dignidade de si mesmo ao violar-se a dignidade do outro, ao n\u00e3o o respeitar como ser moral, n\u00e3o seguindo a lei moral (como prop\u00f5e Kant), n\u00e3o nos comportamos como seres morais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao declarar-se como n\u00e3o-pessoa, como sub-humano ou infra-humano [\u201cUntermensch\u201d] um determinado grupo de seres humanos, real\u00e7a-se falaciosamente diferen\u00e7as insignificantes relativamente \u00e0 maioria, ocultando-se intencionalmente as semelhan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segundo passo<\/strong>: na tend\u00eancia totalit\u00e1ria da obedi\u00eancia cega a um chefe ou a um conjunto de superiores hier\u00e1rquicos, seja administrativamente, organicamente ou politicamente, se n\u00e3o refletirmos sobre o sentido \u00e9tico, na distin\u00e7\u00e3o entre certo errado, das ordens que recebemos, cumprindo-as sem as questionarmos criticamente, estaremos apenas a promover e a potenciar exponencialmente o mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Na rece\u00e7\u00e3o de ordens ou instru\u00e7\u00f5es, ao desligar-se a distin\u00e7\u00e3o entre certo e errado, entre o bem e o mal, o mal torna-se ainda mais banal, na medida em que deixamos de medir as consequ\u00eancias, o impacto ou o resultado das nossas decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Estar\u00e1 dada a receita impar\u00e1vel para a desgra\u00e7a total.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim se explica como foi poss\u00edvel desenvolver-se o mecanismo simples da banalidade do mal que permitiu a promo\u00e7\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o do Holocausto. Da edifica\u00e7\u00e3o de um regime totalit\u00e1rio, assente numa diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, r\u00e1cica, de promo\u00e7\u00e3o do \u00f3dio sistem\u00e1tico de uma comunidade idealizada ao \u201coutro\u201d e ao cumprimento acr\u00edtico e cego de ordens sem as questionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Adolf Eichmann, aos olhos de Hannah Arendt, n\u00e3o era o monstro demon\u00edaco que as suas incont\u00e1veis v\u00edtimas em tribunal testemunhavam ser. Era um ser humano banal, vulgar, comum, med\u00edocre at\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Confirmou-se em tribunal que foi excelente pai de fam\u00edlia, um bom amigo, um bom funcion\u00e1rio p\u00fablico, um eficaz gestor e administrador p\u00fablico e, no sentido de esp\u00edrito de servi\u00e7o p\u00fablico, at\u00e9 um bom cidad\u00e3o, pois acreditava estar a fazer o melhor pelo bem comum. E que, quando confrontado com o horror documentado dos crimes e dos testemunhos horripilantes em tribunal das v\u00edtimas sobreviventes, afirmava ter-se limitado apenas a \u201ccumprir ordens\u201d. \u00c0s quais ter\u00e1 dado obedi\u00eancia e cumprimento apenas com efic\u00e1cia de servi\u00e7o. Porque essa seria tamb\u00e9m a sua fun\u00e7\u00e3o enquanto funcion\u00e1rio superior da m\u00e1quina administrativa nacional-socialista do Estado alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 m\u00e9rito de Hannah Arendt evidenciar que este mecanismo \u00e9 universal. Todos os seres humanos s\u00e3o capazes de produzir mal. N\u00e3o \u00e9 uma exclusividade nem de Eichmann nem do nacional-socialismo alem\u00e3o, nem do povo alem\u00e3o, nem apenas dos estados ou regimes totalit\u00e1rios. Os \u201cGulag\u201d sovi\u00e9ticos de Estaline n\u00e3o ficam muito atr\u00e1s dos \u201cKonzentrationslager\u201d alem\u00e3es. A diferen\u00e7a est\u00e1 dada apenas pela sublima\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, racista, do totalitarismo nacional-socialista e da morte industrializada em massa, como uma f\u00e1brica: r\u00e1pida, produtiva e eficaz.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos campos de concentra\u00e7\u00e3o alem\u00e3es, para al\u00e9m dos judeus, eram colocados todos os que pensavam diferente ou eram diferentes, tamb\u00e9m eles considerados n\u00e3o-pessoas, n\u00e3o-humanos: dos comunistas e sociais-democratas aos democratas-crist\u00e3os e humanistas crist\u00e3os, dos ciganos e homossexuais \u00e0s minorias religiosas organizadas, como as Testemunhas de Jeov\u00e1. A morte racionalizada e industrializada como pena foi implementada com efic\u00e1cia, tornando-a produtiva atrav\u00e9s do exterm\u00ednio pelo trabalho, at\u00e9 no aproveitamento dos restos mortais dos declarados n\u00e3o-humanos. Foram eliminados seres humanos como se de bestas de carga, porcos, vacas, carneiros ou sardinhas &nbsp;se tratasse. Os seus restos mortais foram aproveitados como se de coisas nefastas e improdutivas, tornadas finalmente produtivas, pela morte rentabilizada, se tratasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Arendt, tamb\u00e9m as organiza\u00e7\u00f5es judaicas n\u00e3o s\u00e3o desculp\u00e1veis, nem apenas exclusivamente v\u00edtimas. Tamb\u00e9m elas foram respons\u00e1veis na forma como se p\u00f4de disseminar e instalar progressivamente na Alemanha e na Europa dos anos 30 do s\u00e9culo XX a banalidade do mal. N\u00e3o agiram atempadamente e com esp\u00edrito cr\u00edtico na den\u00fancia e na confronta\u00e7\u00e3o eficaz das posi\u00e7\u00f5es totalit\u00e1rias que negavam aos cidad\u00e3os de f\u00e9 judaica direitos de cidadania. Pois procuraram, em muitas circunst\u00e2ncias, negociar e aceitaram a imposi\u00e7\u00e3o progressiva de restri\u00e7\u00f5es aos direitos, liberdades e garantias dos cidad\u00e3os. Por este motivo, Arendt colheu durante o resto da sua vida fort\u00edssimas cr\u00edticas negativas de associa\u00e7\u00f5es judaicas, como se na conce\u00e7\u00e3o da banalidade do mal estivesse simplesmente a desculpar, como fortuito acaso, a ocorr\u00eancia da barb\u00e1rie do holocausto. Deste modo, demonstraram n\u00e3o conseguirem compreender o alcance universal da sua an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Na conce\u00e7\u00e3o da banalidade do mal, da necessidade de o ser humano agir como ser moral universal e da necessidade da aceita\u00e7\u00e3o da universalidade do ju\u00edzo \u00e9tico, para a combater, Arendt apoia-se na \u00e9tica de Kant, em particular nas no\u00e7\u00f5es de dignidade do ser humano, de pessoa, de autonomia versus heteronomia, de boa vontade e da lei moral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palestra \u2013 dia 23 de janeiro \u2013 14.20 h \u2013 16.10 h<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A palestra procurou assinalar o Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto, institu\u00eddo pela ONU em 2005, no dia da liberta\u00e7\u00e3o do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz-Birkenau em 27 de janeiro de 1945, prestando homenagem \u00e0s v\u00edtimas e criando momentos de reflex\u00e3o e debate para mem\u00f3ria futura sobre motivos, causas e consequ\u00eancias deste horror.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi apresentada a conce\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal e evidenciado, de um modo simples, a partir da proje\u00e7\u00e3o de um excerto do filme \u201cHannah Arendt\u201d (Margarethe von Trotta, 2012), como se p\u00f4de iniciar, desenvolver e inexoravelmente multiplicar o mal que conduziu ao Holocausto.<\/p>\n\n\n\n<p>Apresentados os motivos apontadas por Hannah Arendt para o desenvolvimento da banalidade do mal, foi iniciado um debate com os participantes sobre a conce\u00e7\u00e3o de Arendt e ser\u00e3o convocadas as posi\u00e7\u00f5es dos presentes sobre o que devemos fazer para evitar que o mal se torne banal em geral, sobretudo de modo a evitarmos que o horror do Holocausto possa voltar a ocorrer.<\/p>\n<div class=\"pvc_clear\"><\/div><p id=\"pvc_stats_1768\" class=\"pvc_stats all  \" data-element-id=\"1768\" style=\"\"><i class=\"pvc-stats-icon medium\" aria-hidden=\"true\"><svg aria-hidden=\"true\" focusable=\"false\" data-prefix=\"far\" data-icon=\"chart-bar\" role=\"img\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\" class=\"svg-inline--fa fa-chart-bar fa-w-16 fa-2x\"><path fill=\"currentColor\" d=\"M396.8 352h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V108.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v230.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm-192 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V140.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v198.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zm96 0h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8V204.8c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v134.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8zM496 400H48V80c0-8.84-7.16-16-16-16H16C7.16 64 0 71.16 0 80v336c0 17.67 14.33 32 32 32h464c8.84 0 16-7.16 16-16v-16c0-8.84-7.16-16-16-16zm-387.2-48h22.4c6.4 0 12.8-6.4 12.8-12.8v-70.4c0-6.4-6.4-12.8-12.8-12.8h-22.4c-6.4 0-12.8 6.4-12.8 12.8v70.4c0 6.4 6.4 12.8 12.8 12.8z\" class=\"\"><\/path><\/svg><\/i> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" alt=\"Loading\" src=\"https:\/\/erasmus-esl.pt\/BussolaEstudantil\/wp-content\/plugins\/page-views-count\/ajax-loader-2x.gif\" border=0 \/><\/p><div class=\"pvc_clear\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Helder Louren\u00e7o &#8211; Professor de Filosofia, Departamento de Ci\u00eancias sociais e Humanas (410) Celebra\u00e7\u00e3o do Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto (27 de janeiro). 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